Meu avô sempre que tinha oportunidade fazia questão de dizer que investir em imóveis para posteriormente aluga-los era um negócio que nunca dava prejuízo. Ele nunca tentou, mas parando para pensar, faz bastante sentido. Dois anos de morte e eu ainda lembro bem de todas as suas frases típicas. Cada dia que passa eu vejo mais sentido nos seus dizeres aleatórios (ou pelo menos eu pensava que eram) e consequentemente eu ouvia sem refletir muito afundo. Bacana isso. Ainda bem que ele repetia várias e várias vezes, pois foi graças à repetição que as palavras se fixaram em minha mente.
É impressionante a capacidade do cérebro de guardar e resgatar coisas. Algumas gravamos por associação, outras por repetição (como no caso das frases de meu avô), ou outras nós apenas gravamos mesmo, não sei. Uma das formas que eu mais gosto de relembrar detalhes (da infância, principalmente) é através da leitura. Sempre há uma passagem ou até mesmo uma única palavra que me faz desenterrar do inconsciente uma lembrança. Algumas lembranças são tão marcantes que quando recordadas, a riqueza de detalhes é tão grande que chega assusta.
Hoje tive uma lembrança que eu nunca pensei que ainda estivesse no fundo da caixa do meu inconsciente. É óbvio que quando se está no inconsciente, não se pensa, mas me permita aqui criar esta redundância. Começando a ler o livro de Augusto Cury, “Nunca desista de seus sonhos”, associei a imagem do menino da capa ao título do primeiro capítulo (“Os sonhos alimentam a vida”). Não sei explicar bem os detalhes da associação, mais isso, e somente isso, me fez lembrar de minha primeira série do ensino fundamental (um ano após a alfabetização), quando no dia do livro um vendedor foi chamado para, durante o recreio, montar no meio do pátio da escola uma mesa para vendê-los. Lembrei-me de ter pego um dos livros infantis em quadrinhos que estavam no mostruário e fiz o que todo cliente que se preze faz em uma livraria: dei uma folheada nas páginas. Ou melhor, eu tentei folheá-las! Logo que abri o livro fui interrompido por uma desaprovação do vendedor, alegando que eu só poderia ler o livro depois que o comprasse. Penso que não fiquei com trauma de recém alfabetizado porque logo respondi que não iria comprar e virei as costas para comer com felicidade a minha metade de pacote de biscoito Trakinas (na época fabricavam direito). Não fiquei com trauma, mas foi uma passagem que não esqueci. Talvez meu primeiro contato direto com a lógica capitalista.